segunda-feira, novembro 30, 2009

Fotografia: Timor-Leste | Photography: East-Timor


Esta pele, dedos, rugas e cores fazem-me lembrar as minhas avós...

A avó Branca, tia avó da Ketta, leva-me o pensamento para aqui:

Perguntaram ao Dalai Lama:
- O que mais te surpreende na Humanidade?
E ele respondeu:
- Os homens... Porque perdem a saúde para juntar dinheiro, depois perdem dinheiro para recuperar a saúde.
E por pensarem ansiosamente no futuro, esquecem o presente de tal forma que acabam por não viver nem o presente nem o futuro. E vivem como se nunca fossem morrer... e morrem como se nunca tivessem vivido.


Espero olhar para as minhas rugas no futuro e poder encantar-me por elas, rir-me com elas, mostrá-las sem rodeios, viver o presente sem querer que ele seja o passado ou o futuro... sem artificialismos, sem plásticas, sem nada que não seja autêntico...

terça-feira, novembro 24, 2009

Fotografia: Timor-Leste | Photography: East-Timor


Estamos a entrar no Natal, época de consumismo por excelência...
Será que alguém pensa verdadeiramente sobre o assunto?
O ano passado escrevi por aqui qualquer coisa. Este ano não sei bem sobre o que escrever...

Como qualquer festa importante, o Natal também exige um tempo para a sua preparação e acho que é por aí que o meu pensamento vai desta vez...

Muito influenciado pelo lindíssimo texto do Tolentino Mendonça - O elogio da Inutilidade - sou levado a acreditar que é preciso dar espaço ao inútil da nossa vida, aos vazios, ao sem objectivo, para que nos possamos surpreender pela própria vida. Como ele escreve: A vida tornou-se uma espécie de grande maratona da utilidade... e nós corremos, corremos.

Será que sabemos mesmo para onde vamos? Para o que nos andamos nós a preparar? Qual é a grande festa da vida que exige de nós tanta correria, tanta utilidade, tanta preparação?

...

sexta-feira, novembro 20, 2009

Fotografia: Timor-Leste | Photography: East-Timor


Esta fotografia inquieta-me...
Por entre uma nesga de espaço tentava registar o que me parecia um momento daqueles que fazem os nossos dias conseguidos: dois miúdos a brincar de forma tão simples, com tão pouco e de forma tão feliz...

Desde os 16 anos que a ideia do "dia conseguido" entrou na minha vida pela mão da minha professora de Filosofia. Nunca mais deixei de pensar nisso... quais os pormenores do dia-a-dia que tornam o meu dia conseguido? Uma vez, depois da escola, fiz toda a viagem de regresso a casa a pensar nisso. Depois de descer do comboio e começar a andar até casa o meu olhar estava vazio para não desconcentrar os meus pensamentos...
Quando dei por mim estava a reparar numa criança a brincar naqueles cavalos à entrada dos cafés onde metemos uma moeda para que ganhe "vida". A moeda não tinha sido colocada, mas a criança transbordava alegria por todos os poros... era um daqueles momentos eternos...

Foi nesse dia que percebi verdadeiramente o "dia conseguido". Percebi que só o vemos quando nos deixamos encantar pela aparente inutilidade do que nos rodeia...



Esta fotografia inquieta-me porque quando apontei a objectiva aquela criança deixou de brincar. Inquieta-me porque percebi que o momento que marca o dia conseguido vive-se, não se regista...
Passa-se por ele quase sem nos fazermos notar... fazendo-nos inúteis...

segunda-feira, novembro 16, 2009

Fotografia: Timor-Leste | Photography: East-Timor


Cemitério de St.ª Cruz, aquele que ficou famoso nas imagens da rtp em 1991.

Registei também em vídeo as campas sobrepostas e a forma caótica como se tem de passar até chegar a algum lado...
Cada campa tem o seu formato.
Cada campa representa não só o gosto de cada família, como também o seu poder económico. Campas simples nada têm quando ao lado se erguem autênticos oratórios de tijolo e cimento...


Não sei para onde vai a alma depois de morrermos, mas parece que o nosso corpo continua sujeito às diferenças sociais...
Não sei para onde vai a alma depois de morrermos, mas acredito que não terá dinheiro para se diferenciar das outras...
Não sei para onde vai a alma depois de morrermos, mas há corpos que a andam a asfixiar...
Não sei para onde vai a alma depois de morrermos, mas há corpos em vida que a conseguem tornar imortal...

quarta-feira, novembro 04, 2009

Fotografia: Timor-Leste | Photography: East-Timor


O tio Carlos foi buscar-nos ao aeroporto no dia em que chegámos.
É o condutor de maior confiança do Bensa au Ama e já teve mesmo um camião só dele.

Como a mulher era de Ainaro (zona interior de Timor - das montanhas), quando, por infelicidade ficou viúvo, teve de cumprir todos os rituais de cor metan (cor negra ou luto) tradicionais. Uma das implicações é comprar um búfalo, animal sagrado, e oferecê-lo em sacrifício para que o espírito da mulher possa descansar em paz. A carne é depois retalhada e distribuída por familiares.

Para comprar o búfalo, teve de vender o camião. Perdeu a sua fonte de receitas e a sua vida nunca mais foi a mesma. Desde essa altura que percebeu que o peso cultural pode trazer infelicidade e dificuldades acrescidas. Gastou todo o dinheiro que tinha para comprar o búfalo e por essa razão recusa-se a casar novamente. Não percebe porque se têm de cumprir esses rituais todos...

O tio Carlos é um condutor excepcional, bem disposto, sempre disponível.
Com ele a música não falta na cabine, daquela bem típica timorense ou indonésia...


domingo, novembro 01, 2009

Fotografia: Timor-Leste | Photography: East-Timor


Gosto muito desta fotografia...

... enquanto esperávamos pelo início da viagem para Laisorolai, este menino estava a deixar-se encantar pelo espelho em "olho de peixe". Fazia caretas, punha a língua de fora, comia a 1 centímetro de distância para ver todas as suas deformações. Quando se desviava para os lados a cara esticava-se... quando se punha mesmo de frente a cara engordava...

Não deveria ser assim também connosco? Deixarmo-nos encantar por quem nos mostra uma nova visão das coisas... por quem descobre em nós a novidade... mesmo que essa novidade sejam defeitos... as crianças olham para eles de frente e riem-se. Nós fugimos deles e nem sabemos se devemos chorar ou rir...

Hoje, 1 de Novembro, dia de todos os santos, parece-me o dia certo para nos deixarmos encantar pela ideia das nossas misérias humanas poderem ser santas para alguém...